Texto publicado no jornal A Tribuna, terça que passou.
Vale a leitura, apesar do tema muitas vezes amedrontar, é o belo da clareza de que temos nosso tempo para usufruir do magnífico da vida...na busca da sabedoria.
Falar em finitude para a maioria das pessoas ainda é ensaiar sobre a morte, o que lhes parece intolerável no mínimo, chegando aos limites do mórbido e mesmo do necrófilo. É pena, porque nada tem a ver e acaba por afastar de um dos sentidos mais importantes desta nossa passagem.
Nos ensinamentos tibetanos, sempre sábios, aprende-se que a imagem da finitude representa um dos mais belos entendimentos do viver, aquele viver sem enganos e que enxerga as ilusões no que elas realmente são: nebulosidades para serem clareadas, cortinas de fumaça a se eliminar. Aliás, confundem-se ilusões com sonhos; estes devem ser preservados sim, até o último dia de nossa vida, aquelas devem ser eliminadas. A isso se pode dar o nome de maturação. É pueril e enganoso afirmar “não quero perder as minhas ilusões”.
O sentido da finitude é a consciência do transitório, a clareza de que temos um tempo hábil para usufruir, aprender, transmitir, captar e que esse movimento deve ser feito de forma harmônica ao Movimento Universal, sem tantos medos ou pavores diante do inevitável. Racionalmente todos nós sabemos que não somos eternos e nada é mais frase feita do que isso. E que nada adianta em termos de entendimento. Nada a ver com o sentido da finitude, uma força internalizada, a imagem do fim da estrada no meio do percurso, o que nos leva a um olhar mais curioso da paisagem à volta. O filósofo Sêneca nos premia com um magnífico apelo a isso: “Da Brevidade da Vida”, leitura obrigatória para todos os que se interessam pela verdadeira qualidade da existência.
A dificuldade maior ou menor, o pavor que as pessoas sentem diante do tema é que conscientizar-se da finitude, nos obriga a encarar o que fizemos até aqui com a nossa vida, não é verdade? O quanto nos preocupamos em tentar evoluir ou como perdemos tempo com superficialidades que nada acrescentam a não ser trazer aturdimento para não pensar e questionar. Eis porque refletir sobre isso é o horror máximo dos fúteis, que tentam afastar qualquer tipo de conversa ou chamado a esse respeito, classificando de “pesado” ou “negativo” e chegando à agressividade, arma de quem não tem argumentos para a discussão. Fogem também com aquela postura odiosa e distante do “não vamos discutir para não brigar”.
Até peço desculpas pela questão, mas como alguém pode se dizer religioso ou buscando um caminho espiritual, batendo no peito sua fé ou se afirmando místico e ter tanto pavor do assunto finitude? O que nada tem a ver com a tristeza e o brutal da perda, do desaparecimento físico que tanto nos devasta, é claro.
Evoluir espiritualmente é exercitar o desprendimento e nisso todas as ideologias filosófico-religiosas concordam. Logo, a consciência da finitude nada tem de mórbido, negativo, fatal. Apenas acrescenta inteligência – quiçá sabedoria – ao nosso viver.